Marrocos, a realização de um sonho antigo

Demorei muito tempo até pegar no meu portátil e escrever este artigo. Por várias razões, como não escrever nada há muito tempo, mais do que aquele que gostaria, mas é preciso acalmar e pôr as ideias em ordem para me voltar a focar. Por outro lado, o destino, o país, a cidade, e o que significam para mim. Penso que nada do que escreva vai conseguir transmitir o que sinto e o que senti. Senti que estava de volta a casa.

25 de setembro, depois de pouco mais de uma hora de voo (e mais uma de atraso), finalmente avisto Marraquexe. Apesar de não ser a capital de Marrocos, Marraquexe é talvez a cidade mais vibrante deste país do Norte de África. O avião continua a descer, o tempo não pára e vejo as casas daquela cor típica, de terra, de deserto, meio vermelhas, meio cor de barro, cada vez mais perto e a emoção é também cada vez maior. "Finalmente, voltei", a minha cabeça não parava de repetir esta frase e os meu olhos denunciavam-no. Foram muitos anos a sonhar com este regresso e o quão maravilhoso seria, voltar a sentir a agitação, o calor, a gastronomia, o som do chamamento para a oração.

Marrocos foi a minha primeira grande viagem, em 2004, durante a qual celebrei o meu 11ª aniversário e é também o país que mais me emociona, que me sinto mais próxima, por razões familiares. Ainda que já tenham passado tantos anos, é a viagem que me lembro melhor – sei de cor o nome de todas as cidades que visitei, todas as experiências que vivi, as pessoas que me acompanharam e que desde aí nunca mais vi. E lembro-me do quão fascinada me senti. Por muito que quisesse voltar a Marrocos, tinha medo. Medo da expectativa que criei, medo de me desiludir e não sentir nada do que tinha sentido ou experienciado. Afinal, já passaram 14 anos. Quase tantos como aqueles em que digo, "aos 25 anos vou voltar a Marrocos". Tinha de ser, tinham de ser os 25 anos, uma idade marcante, forte. A ideia era passar lá o meu aniversário, tal e qual como em 2004, mas a vida – e o trabalho – não o permitiu e fui em setembro, o meu (nosso) mês, por isso tudo bem.

Saímos do aeroporto em direção à Medina - agradeço ao motorista do transfer que pacientemente, calculo, esperou por nós, já que, além do atraso do voo, estivemos à vontade uma boa hora e meia para passar a alfândega e trocar alguns euros por dirhams. Sim, a loucura da condução em Marrocos, em especial quando nos começamos a aproximar do centro da cidade, continua a mesma. O motorista pára o veículo à entrada da Medina e vem um senhor mais velho, com uma espécie de carroça. Coloca a nossa bagagem lá dentro e lá vamos nós atrás dele, pelo labirinto estreito até ao nosso Riad, Amiris.

Assim que chegamos, um senhor simpático, que nos dias seguintes descobrimos que era o chef que preparava os nossos maravilhosos jantares, pede para nos sentarmos. Não fala inglês. Além do árabe, só francês. Volta passados alguns minutos, mas não vem sozinho: chá de menta, o verdadeiro, o único. Continuamos no bonito pátio interior do Riad, à espera do gerente, que irá fazer o nosso check-in, o Abdel que, mais que gerente do nosso alojamento, foi um amigo, um conselheiro e um professor.

Entretanto já passam das 16 horas. Perguntamos por um bom sítio, não muito turístico, onde possamos ter uma vista bonita e comer bem. Seguimos para o restaurante La Table, no bairro judeu, a apenas 5 minutos a pé. E aí ouvi pela primeira vez, o som inconfundível do chamamento para a oração – adhan – que ecoa por toda a cidade, em cada mesquita. Não, os marroquinos muçulmanos não param todos de trabalhar para rezar, mas é certo que pelo menos a música será desligada até terminar o chamamento. Depois, quando têm uma pausa, vão rezar. Pode não ser na mesquita, basta ser "um sítio calmo e limpo", explica-me o Mohssine, um dos colaboradores do riad e, mais que isso, um amigo.

Restaurante La Table

Primeira tagine de muitas! Digo isto sem me queixar; para mim todas as refeições são boas para comer uma boa tagine, e desengane-se quem pensa que a tagine é sempre a mesma coisa: cuscuz com borrego/frango. Há mil e uma formas de a fazer. Num dos jantares no riad, o chef cozinhou uma tagine com ovos (mexidos) com almôndegas de carne, muito bom!

Os muçulmanos não consomem álcool por isso vão encontrar uma série de virgin cocktails em quase todo o sítio. Só não dizem que são sem álcool, pressupõe-se logo à partida. Aqui pedi um Mojito (leia-se Virgin Mojito). E sem gelo – sempre, em todas as bebidas, já que o gelo pode ser feito com água da torneira, o que não é aconselhado. Era muito bom, saboroso e refrescante, mas convenhamos, não era um (virgin) Mojito, era um sumo de lima com chá frio de hortelã.

Herboriste

Para os apaixonados por especiarias, ervas e produtos naturais. O melhor sítio para comprar produtos 100% naturais, tradicionais e a um preço muito acessível. Aqui há uma regra: para todos os males há um receita e uma erva para curar. Trouxe vários produtos: um bálsamo para os lábios (que miraculosamente também é remédio para aftas, por exemplo) que, além de super hidratante cheira muito bem; óleo de argão, o verdadeiro, para cabelo, pele e unhas, dizem que é um excelente antirrugas também, daqui a uns anos falamos sobre isso, para já, posso dizer que é uma das melhores máscaras hidratantes de cabelo e pele; e um pó preto 'mágico' para quem tem enxaquecas, alergias, sinusites, etc. Para quem não acredita em nada destes produtos naturais e do que eles prometem, vale a pena a visita na mesma e, de certeza que vão encontrar as vossas especiarias preferidas para cozinhar, a variedade é a maior que já encontrei, ou até maquilhagem tradicional e natural marroquina, como pigmentos de sombra ou um dos mais resistentes eyeliners que já encontrei.

 

Tentámos fugir um pouco ao que é muito turístico, muito visto e que nós inclusive já tínhamos visitado. Optámos por novos lugares e pelo básico e mais giro de Marraquexe: perdermo-nos pelos souks.

Sim, vão perder-se nos souks/medina. Tudo bem, o encanto é mesmo esse! E não, os marroquinos não vão pedir-vos dinheiro por tudo e mais alguma coisa e podem (e devem) pedir indicações – esqueçam lá os mapas e google maps, etc. Nada funciona, nada está de acordo com a realidade – dos 3 mapas que tive na mão, nenhum era igual, e foram-me todos dados por marroquinos. Mas atenção, peçam indicações a donos de lojas e a polícias, nada de aceitar a 'bondade' de quem se chega perto a oferecer os seus serviços de guia – em Marrocos, para acompanhar os turistas nem que seja por uma ou duas ruas é preciso ter um dístico específico de guia turístico. Caso contrário, as multas são pesadas. Existe até uma polícia especial para garantir a segurança dos visitantes e andam muitas vezes à paisana. Quem vos quiser acompanhar, muito provavelmente não é guia e só quer mesmo ganhar dinheiro com a inocência dos turistas.

 

Praça Jemma El-Fna

A mais importante praça de Marraquexe. São muitos os lugares para comer, beber e fazer compras. Por lá também se encontram os famosos 'aguadeiros'. Vi vários marroquinos a beberem água das chávenas douradas caraterísticas mas é algo que não me dá muita confiança, por motivos de higiene... Já em relação às compras e restaurantes, os preços praticados nesta zona são muito inflacionados. Há sítios bem melhores e mais acessíveis na medina. Ainda assim, não dispensei o meu café expresso no Café de France.

 

Le Jardin Secret

Se se chama secreto, por algum razão o é: é que a maioria dos marroquinos (incluindo polícias) a quem pedimos indicações não faziam ideia do que era nem onde se localizava. Demorámos mais de uma hora a encontrá-lo mas na verdade estava apenas a 15 minutos a pé do nosso riad... Este pequeno paraíso no coração da medina tem mais de 400 anos e tem uma riquíssima história, tendo sido o lar de várias figuras importantes da cidade, mas só está aberto ao público há cerca de 10 anos.

 Le Terrasse des Epices

Um restaurante muito muito giro e fresco, com boa comida. Mas muito ocidental. Tem um menu que contempla gastronomia tradicional marroquina mas também ocidental. É um dos poucos locais onde o álcool está à disposição para os turistas. O preço é relativamente elevado.

 

Le Jardin de Majorelle

Um dos jardins mais bonitos – e mais visitados – da cidade e onde se encontra o Museu da Cultura Berbere. Foi construído e idealizado pelo pintor Jacques Majorelle em 1931 e comprado décadas mais tarde por Pierre Bergé e Yves Saint Laurent, que se apaixonaram pelas cores deste espaço botânico.

 

Cascatas de Ouzoud

Viagem de última hora, sugestão do nosso querido Abdel e ainda bem! Demorámos 2h30 a chegar mas mais por causa do estado das estradas do que propriamente pela distância. À nossa espera estava o Omar, o nosso guia, um verdadeiro poliglota. Falava um pouco de inglês, francês, árabe, daryia e ainda berbere – enganam-se se acham que é tudo o mesmo. Em Marrocos todos sabem o árabe oficial mas o que se fala é outro dialeto, a dariya. Já os berberes, bem, falam berbere, outra língua derivada do árabe mas muito, muito difícil e completamente diferente. Como dizia o Omar "um berbere sabe falar daryia em poucos meses, mas um marroquino de uma grande cidade nem em 50 anos vai conseguir falar perfeitamente o berbere".

Tinha chovido na noite anterior (na verdade choveu quase todas as noites que estive em Marrocos) e por essa razão a água das cascatas assemelhava-se mais a lama do que á água limpa e cristalina que as fotografias normalmente mostram. Não deu para mergulhos mas nem por isso perdeu a beleza. Estas são as maiores cascatas do país, têm mais de 100 metros de altura, em plena cordilheira do Atlas. A vida aqui é muito tradicional e rudimentar mas todos têm muito orgulho das suas origens, do seu trabalho e da sua terra. Mas o que para nós é fantástico, para os jovens que lá moram e trabalham nem tanto. Um dos rapazes que conhecemos, 'Jack Sparrow' como os amigos o chamam por ser um dos 'comandantes' dos pequenos barcos que passeiam os turistas, dizia-nos que "viver aqui é uma seca. Para vocês é bonito para nós é sempre a mesma coisa. Mas há algo que adoro neste trabalho, é que todos os dias tenho oportunidade de conhecer pessoas de todo o mundo". Naquele dia conheceu uma família portuguesa e soltou-nos um grande "Ah, Cristiano Ronaldo!". Sim, é sempre a primeira coisa que um marroquino diz quando se fala em Portugal. E nós, como bons portugueses, ficamos todos contentes e vestimos a camisola nº 7 com orgulho.

Não pensem que vêm para as cascatas descansar. Pelo contrário, vão andar e subir muito! Mas também vão comer muito bem e conhecer pessoas extremamente calorosas.

 Política e Religião

Marrocos é um reino muçulmano mas muito aberto a outras culturas e formas de estar. Uma das minhas maiores preocupações era a roupa. O Abdel disse-me que eu poderia andar como bem entendesse, que apesar de eles, muçulmanos, seguirem determinadas regras, não impõem a que não segue a mesma religião as suas ideias. Ainda assim, acho que por uma questão de respeito não devemos 'abusar', isto é, usar grandes decotes ou saias/calções demasiado curtos.

Ao longo dos dias  verifiquei que realmente era assim. Vi mulheres vestidas dos pés à cabeça, outras com roupa ocidental com apenas o hidjab na cabeça, e vi mulheres ocidentais, vestidas como bem queriam. E não vi nenhuma dessas formas de vestir chocar alguém como nos choca a nós, ocidentais, ver uma mulher de burka. Nunca me senti demasiado exposta ou demasiado observada. Acho que é mais provável isso acontecer em Portugal do que em Marrocos... Respeito e tolerância, são as palavras que melhor definem os marroquinos.

Uma das minhas curiosidades, era saber qual era a opinião das pessoas em relação a quem os governa. O rei, Maomé VI, está muito presente na vida política marroquina mas não tanto quanto o povo gostaria. É que todos os marroquinos com quem falei, citadinos ou berberes, me disseram que "o problema não é o rei, o rei é bom. O problema é o governo", que continua bastante conservador e não quer aceitar alguns avanços no país. "Marrocos tem evoluído muito a cada ano que passa mas há sempre quem não queira que as coisas mudem...".

Além desta questão, é claro que o terrorismo e os direitos das mulheres não poderiam passar ao lado... As conversas são sempre interessantes, mas é preciso ouvir-se de forma imparcial e sem preconceitos. Mais, é preciso ouvir e compreender a cultura. Mas vamos por partes:

- As pessoas com quem falei mostraram-se revoltadas por os ocidentais associarem o seu deus e a sua religião ao terrorismo. É algo que os entristece verdadeiramente. "Alá diz que não devemos desejar nem fazer mal ao próximo, respeitar todos e todas as religiões. Esses grupos não são muçulmanos, esses grupos não ouvem nem seguem os mandamentos de Alá. O que eles fazem é haram (pecado)". O orgulho que os muçulmanos têm na sua religião é bonito e é único, digam o que disserem. Não há cá esta coisa de ser 'muçulmano não praticante'. Ou se é, ou não se é. Porque a religião está presente em todo o quotidiano, até ao mais pequeno pormenor. E por muito que não se concorde, não deixa de ser bonito de ver.
- As mulheres trabalham e, nas grandes cidades, já há poucos casamentos arranjados sem que os noivos 'aprovem'. É importante referir que nos meios mais tradicionais e rurais as coisas ainda funcionam de forma diferente, mas nas grandes cidades marroquinas sim, há casamentos arranjados, e não, eles não vêm mal nisso, desde que possam conhecer e aprovar – ou não – o noivo e a noiva. Muitas vezes, são os futuros noivos ou noivas que pedem aos pais, quando se sentem preparados, para arranjarem um companheiro para eles.
 
Uma das perguntas que fiz a um marroquino com quem estava a falar sobre este assunto foi o que é que ele achava das mulheres trabalharem. Ele disse-me que achava bem. "Mas e se fosse a tua mulher?". Pausa. "Até termos filhos, não me importo que a minha mulher trabalhe se quiser mas se quiser ficar em casa também não faz mal", mas porquê? "Porque aqui o homem é que sustenta a casa. Ou seja, mesmo que a mulher trabalhe, ela normalmente não contribui para a casa, esse é o dever do homem. Aqui não é normal um casal dividir as contas ou a renda, o homem tem o dever de cuidar e proteger a sua mulher. Portanto, se ela quiser trabalhar, será para ela mesma, para comprar as suas malas e sapatos, e já é um alívio (risos)". É claro que isto é o que acontece na generalidade dos casos, não significa que seja uma obrigação.

"O mais importante é ser feliz e haver comunicação entre o casal, darmo-nos bem. Se as coisas não estão bem em casa, tudo estará mal. O dinheiro não é tudo, a felicidade sim".

 Deserto de Agafay

(Percebi que paguei por esta viagem ao deserto muito mais do que se tivesse reservado em Marraquexe, o que me deixou um pouco chateada porque podia ter feito muito mais por menos de metade do valor mas... o que está feito, feito está e não foi menos especial por isso)

O que eu mais queria fazer nesta viagem era ver o nascer do sol no deserto e sentir a paz, o silêncio e a beleza do momento e do lugar. Mas devo dizer que foi ainda melhor que estava a contar.

A viagem até lá foi um pouco atribulada, já que motorista por vezes não parecia saber por onde estava a ir. Tudo bem se não estivéssemos num país estrangeiro, no meio do deserto, às 4h da manhã sem ver absolutamente nada, exceto os 3 metros que os faróis do carro iluminavam à nossa frente. Mas correu tudo bem e, mesmo sem falar uma única palavra de inglês, nós e o motorista conseguimo-nos entender (quase) perfeitamente.

Foi um momento único, sem dúvida. Estar no meio do nada, sem ver nada além das luzes da cidade bem lá ao fundo, sem fazer ideia do que nos rodeia. E de repente, começar a ver a imensidão que nos rodeia, as cores e pensar "esta viagem está a ser tudo o que imaginei e mais ainda".

Depois deste momento, o motorista levou-nos até uma pequena vila berbere, onde um senhor de poucas palavras nos recebeu em sua casa com um chá quentinho de menta, como bom anfitrião, e que tão bem nos soube, depois de algum tempo ao frio, e nos vestiu a rigor.

De seguida, demos um passeio de camelo, estas criaturas de mau humor mas gentis e capazes de nos salvar em situações de risco no deserto. Aqui, pudemos apreciar melhor as cores do deserto e sentirmo-nos um pouco mais berberes.

Curiosidade:

Mais de 60% da população marroquina é ou descende da tribo berbere.

 

Último jantar no Riad Amiris

"Mais uns dois ou três meses aqui e ficavas a falar quase perfeitamente daryia", diziam-me o Abdel e o Mohssine, as duas pessoas que mais me aturaram – e ensinaram – nos meus dias em Marrocos.

Falámos de tudo e são, sem dúvida, pessoas que recordo com carinho e com as quais quero voltar a estar. Ambos falaram-me muito da cultura do seu país e, claro, da língua. Não houve um jantar que eu não estivesse constantemente a chamar o Mohssine para me ensinar a dizer alguma coisa, ou dizer-lhe eu uma frase para ele me corrigir ou dizer que estava certa. Ou dizer-lhes a quanto comprei determinada peça no souk, depois de regatear. Na verdade, admito que devo ter sido a cliente mais chata que tiveram naqueles dias – em minha defesa, o riad também não é muito grande...

 Esta foi a minha viagem, a viagem com que sonhei durante tanto tempo e que tanto me ensinou e maravilhou. Ficam as saudades do som do Adhan, das cores, dos souks, da confusão controlada, do cheiro da tagine acabada de fazer e de ser recebida em qualquer lugar como família e com um chá de menta. Mas não me fico por aqui. Ainda não disse adeus a Marrocos e quem sabe quando a vida me volta a levar lá. Uma coisa é certa, o passaporte está pronto e eu também. E quem me pergunta o que sinto quando penso em Marrocos eu digo "o mesmo que penso quando estou em casa". Ma'a as-salamah!

Isi, este foi para ti ♥